sábado, 19 de novembro de 2022

Pq dói tanto?

Em minhas vagas memorias da infância, lembro de um dia, tentar jogar futebol e, na emoção do momento, fechei os olhos e chutei a bola com toda a minha força... Por uma fração de segundos, aquilo funcionou na minha cabeça, mas ao fechar os olhos, chutei a guia do canteiro onde tinha uma árvore... Até aquele momento, foi a pior dor que eu senti na vida. Eu deveria ter uns dez, onze anos... No momento do chute cego, apenas senti minha perna esquerda se encolher, e meu pé doer muito... Demorou alguns minutos e meu tênis estava todo encharcado de sangue.
Nesta época, meu pai calculava o tempo que eu levava da escola pra casa e, obviamente este dia eu não cheguei no horário, o que fez ele ir atrás. Ele me encontrou no meio do caminho, chorando e com muita dor. Ainda fomos até em casa, deixei meus materiais, ele pegou meus documentos e fomos pra Sta Casa de Misericórdia em Sto Amaro... Passamos o dia lá.
Entre choros e puxões de orelha (literalmente - pq futebol não era coisa pra menina) a fila diminuía. Fui atendida, tirei raio X... Meu 'dedão' e os dois que seguiam ele estavam totalmente deitados para a esquerda. O sangue já havia esfriado, então a dor estava o triplo, o pé roxo... O enfermeiro apenas sorriu e disse: vai doer um pouco, mocinha! 
Sério, não doeu SÓ um pouco. Ele segurou meus dedos e num impulso só, realocou eles no lugar. Misericórdia, que dor!
Fui pra sala de gesso... E meu sonho de princesa estava se realizando: ter uma parte do corpo engessada!
Detalhe: era mês de outubro, e a recomendação era ficar 2 meses com aquilo no pé. Bastou 20 minutos pra este sonho já se tornar o pior pesadelo. Doía muito, era pesado, tinha um furo no calcanhar, coçava pra kct... Horrível.
Daí, fiquei imaginando passar meu aniversário, Natal e ano novo com aquilo nos pés... Jamais. 
Tive a brilhante ideia de, ao invés de deixar '2 meses', mudar a receita para '20 dias'. E assim eu fiz. Usei minhas habilidades marginais de copiar a letra dos outros e fiz isso.
Hoje, eu seria presa por isso... E o pior, que mesmo com o amadorismo da fraude, o médico aceitou na hora de tirar o gesso. Outro ponto que não é legal... A enfermeira quase cortou minha pele (ainda hoje, tenho uma leve cicatriz).
Fui pra casa, mancando e com dor, mas sem transparecer, pq não poderia correr o risco de voltar ao hospital e passar por tudo aquilo novamente.
Mal sabia eu que era o princípio das dores... E pro resto da vida. 
Cresci, e meu pé nunca mais foi o mesmo. Hoje, aos 37 se muda o tempo, meu pé dói. Meus dedos não dobram normalmente e, sempre que me ver, estarei estalando o pé esquerdo. Parece que ele é solto, sei lá...
Tá, mas o que isso tem a ver com o título do texto?
Então, eu meio que me acostumei a pegar 'atalhos' na vida que me trouxeram situações que não foram curadas no tempo estabelecido, o que gera dores, sempre que 'mudam as estações'. Como assim, Bruna?
Meu imediatismo e ansiedade, me fazem acelerar processos, pular etapas e me lascar com as sequelas provocadas por mim. E sim, doem pra um sr kct! 
Talvez, se eu tivesse suportado os 2 meses do gesso, hoje meu pé seria normal, eu poderia usar um salto, ou dançar de boa (não que eu tenha sido impedida por conta disso), mas eu preferi correr o risco, e me dei mal. 
Talvez se eu esperasse o momento certo para tomar certas decisões, eu não sofreria tanto com os resultados ruins que venho tendo, mas eu não soube esperar. E sim, dói muito.
Entender pq dói tanto já está nítido pra mim, mas este é outro atalho que eu tomei pra 'meter o loko' e deixar pra amanhã o que eu não quero fazer nunca. 

E é isso. 

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