terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A Vida É Um Instante


Sempre odiei hospitais e quem me conhece sabe o pavor que tenho das seguintes palavras ditas na mesma frase: 'você precisa ir ao médico'... Sinceramente, não sei de onde veio este medo e, por outro lado, todas as minhas idas à um hospital não foram lá muito agradáveis.
Graças a Deus, sempre fui um ser humano saudável, apesar de não colaborar em nada para isso (até o presente momento).
E porque este texto agora?
Estou aqui no saguão do hospital, esperando a interminável fila de Triagem pra passar com o cirurgião, para assim saber o dia em que serei livre da pedra que apareceu no meu caminho - específicamente, na minha vesícula - tô morrendo de medo? Com toda certeza do mundo! Desesperada e torcendo pro milagre acontecer antes de eu ser atendida pelo recepcionista, mas sigo firme. Não tão firme talvez.
Enfim, aqui na fila de espera, não tem muito o que fazer a não ser observar tudo e todos ao redor. Tem todo tipo de gente: barraqueiras, simpáticas, barraqueiras simpáticas, pessoas muuuuuito doente, aquelas que só querem um atestado e, aquelas que estão aguardando notícias de alguém que já está aqui. É sobre estas que quero falar.
À poucos minutos atrás, um enfermeiro (provavelmente, estagiário, pela frieza da situação) apareceu na porta que sai da emergência e chamou por 'familiares de Francisco Soares', friamente, sem demonstrar nenhuma empatia. Andou pelo saguão e abordou umas três ou quatro pessoas com um sorriso amarelo, perguntando se eram parentes do sr Francisco Soares. Todas negativas, ele com um saco com roupas e pertences ia voltando para o corredor 'da morte', quando um rapaz e duas moças o pararam. Sim, eram os familiares do sr Francisco Soares! Ele simplesmente, entregou o pacote e disse, ele morreu, aguardem aqui para a liberação do corpo, virou as costas e saiu. Assim como quem diz: uau, que cabelo bonito! Ou 'que horas são?'. As moças começaram a chorar desesperadamente, e o rapaz tentou consolá-las, mas também não resistiu e caiu em lágrimas. Até eu tive vontade de chorar, mas não pelo sr Francisco Soares, sim pelo péssimo atendimento e cuidado deste enfermeiro, que por ironia, usava um broche de 'enfermagem por amor' no crachá. Entendo a correria de um hospital, as inúmeras vezes que ele, talvez, tenha que dar esta noticia por día (aquí neste hospital, o índice de mortalidade é alto, daí meu medo em fazer a cirurgia aqui) a pressão que sofre o dia todo, mas EMPATIA diploma nenhum garante.
Os familiares do sr Francisco Soares estão lá fora, no estacionamento, ainda chorando.
Enquanto escrevo mais duas pessoas foram chamadas para receber a triste notícia que alguém querido se foi, porém, a notícia foi dada por humanos, não apenas robôs enfermeiros. É muito triste.
Uma vez, ouvi que há pessoas que 'são' e outras que 'estudam para ser', acho que hoje tive um péssimo exemplo disso.
A vida é um instante, e num instante deixamos de ser, ou estar.